A sucessão de escândalos que tem marcado a política brasileira nos últimos anos começa a deixar seqüelas graves no universo institucional do país. Aliás, o fenômeno pode ser constatado em boa parte da América Latina. Governantes falastrões, com a popularidade respaldada pelo assistencialismo, apostam na crise entre os poderes que fazem uma República. Venezuela, Peru, Equador, Argentina e Bolívia, são alguns dos nossos vizinhos que, em níveis diferentes, vivenciam essa realidade. O resultado desse ambiente de conflagração institucional foi o fortalecimento do Poder Executivo em detrimento do equilíbrio democrático.
Naturalmente, esses processos de corrosão das relações institucionais não são automáticos. Para chegar a esse estágio, foi preciso percorrer um longo caminho. O percurso que leva uma nação à intransigência política parece sempre inofensivo, e o primeiro passo é a desqualificação da oposição constituída. Por isso é preciso atenção ao que acontece no Brasil.
No dia 28 de fevereiro, aqui no Ceará, o presidente Lula criticou duramente o Judiciário, o Legislativo e as oposições. Claro que ninguém está livre de ser examinado, e que qualquer ação pode ser apreciada e qualificada. A questão é o modo como isso é feito. Naquela ocasião, Lula insinuou, em resumo, não poder governar melhor por culpa dos que têm a missão de vigiá-lo, pois esses estariam todos imbuídos de más intenções.
Esse tipo de discurso, na prática, pode levar parte da opinião pública a pensar que as oposições e os poderes republicanos são dispensáveis. Outro efeito negativo é que o menosprezo pelas instituições democráticas pode seduzir alguns setores políticos. No dia 25 de fevereiro passado, Ivo Gomes, chefe de gabinete do governo estadual, disse que a oposição age motivada por interesses eleitoreiros. Dois dias antes, Luizianne Lins acusou a oposição de fazer “futrica”. No último dia 02 de março, o deputado federal Ariosto Holanda (PSB) chegou a defender a extinção do Senado, pois a oposição contrariou o governo federal na votação da CPMF.
A tática parece um recurso de defesa banal, que faz parte do jogo, mas no fundo revela um estado de espírito que tem avançado no Brasil, marcado pela intolerância à divergência. Convém combatê-lo e cobrar respeito dos governantes para com seus opositores, que também são representantes da sociedade. Um pouco mais, ser oposição terá um sentido inverso ao de poucos anos atrás: de símbolo de resistência abnegada e de luta contra o poder, para a exclusiva representação de interesses mesquinhos. Um espectro ronda a América Latina. Estejamos atentos.
"Nossas ações são regidas pelas idéias, ainda que inconscientemente. Portanto, pensar é mover a própria História; e pensar com método é conferir qualidade aos eventos." - Wanfil
quinta-feira, 6 de março de 2008
Wanfil no O Estado
Boas novas. A partir de hoje o jornal O Estado publicará, semanalmente, artigos meus. O convite se deu, em grande parte, por conta do trabalho feito aqui com vocês no Blog. Segue abaixo o texto desta quinta:
É preciso respeitar as oposições
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1 comentários:
Você sabe que sempre li " O Estado", jornal que considero o único de oposição.
Fico feliz de saber que agora ele está mais consistente , afinal seus textos são ótimos.
Magg
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