Artigo publicado na edição do dia 13 de março.
O QUE É MELHOR: CIÊNCIA OU RELIGIÃO?
Nas discussões públicas que acontecem no Brasil, quando alguém fala em Deus, em moral religiosa ou em dever espiritual, logo é repreendido, acusado de desviar do assunto e de enveredar pelo terreno da crença cega, como se esses valores não passassem de superstição. Os porta-vozes da inteligência e da racionalidade, imbuídos da autoridade de quem se considera plenamente isento, interditam o debate e decretam que o melhor critério para avaliar uma questão é o científico.
A polêmica sobre pesquisas com células-tronco embrionárias, que dividiu o país na última semana, ilustra bem essa realidade que identifica ciência com materialismo e religião com fantasia, dando a impressão de que a realidade que nos cerca se restringe à sua dimensão física. Quando falo em religião não me refiro apenas aos seus ritos e liturgias, e sim ao conjunto de significados que elas condensam e que formam um valioso e indispensável bem cultural. Também não represento nenhuma doutrina específica, nem desejo aqui abordar o mérito do uso de embriões em pesquisas científicas. O que importa agora é ressaltar a hegemonia de um discurso estereotipado que menospreza a defesa de valores religiosos para exaltar dogmas científicos.
A crença de que ciência é melhor do que religião é uma distorção calculada. Essa prevalência existe porque o senso comum é pautado por um viés ideológico materialista, de matiz esquerdista. Não por acaso Marx pregava que a religião é o ópio do povo. Ele não falava das instituições eclesiásticas, mas da própria noção de espiritualidade. Para o materialismo, seus ideais de justiça estão acima da moral religiosa. Matar em nome da revolução, por exemplo, é justificável. Já para os religiosos, a moral é o critério absoluto e a vida um bem inviolável. O materialismo acredita que grupos sociais humanos vivem segundo leis científicas gerais; a religião prega a reforma individual, o que significa dar valor à singularidade do homem. Por isso tanto empenho em desacreditá-la.
Toda civilização tem por base uma manifestação transcendental e, com efeito, nunca houve uma sociedade laica. É da nossa natureza. Por que motivo matar uma pessoa é crime? Que lei científica determina isso? Nenhuma. O direito absorveu e deu encaminhamento técnico aos preceitos religiosos que estabelecem a igualdade entre os homens, porquanto filhos de Deus. A fé e a ciência, se livres do fanatismo, podem e devem permear as discussões públicas e políticas. Um não é melhor do que o outro e ambos são instrumentos válidos e necessários. O resto é propaganda ideológica.
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